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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

aqui no bairro, antes do fim do mundo

Faço de tudo um muito pra sobreviver aqui antes do fim do mundo que vem vindo, de agosto pra cá fui tradutor figurante empacotador livreiro provador de cerveja e cachaça adestrador de pombo e ortifrutigranjeiro nos canteiros da marginal pinheiros, agora ando no desemprego mas me distraio como escritor fantasma de twitter de poetas mortos, sou responsável por tuitar frases de João Cabral João Antônio Artaud Arnaud Rimbaud Riobaldo Gregório de Matos sei de cor e salteado os livros desses caras, tenho pouco guardado no bolso mas dá pro pingado na padoca do reginaldo, tá ligado que lá o comercial, com mistura à tua escolha, sai por oito depois das 3 da tarde e se pá o reginaldo ainda te arruma um suco da máquina, aquele amarelo que nem meu dente, que agora mesmo tá nessa dor infernal mas quem sabe semana que vem eu não tire a carteira do sesc. Em frente quase ao reginaldo tem o brechó daquele cara tatuado, ainda não perguntei o nome dele mas o cara é gente boa apesar de viado, serião que é, ajuda a gente e faz um preço bacana pra pobre nenhum encher o saco, outro dia comprei uma calça que tinha a marca Mcdonald’s no bolso e numa etiqueta do lado, foi barato pra caralho e o cara ainda elogiou, quando eu saí do provador vestindo a calça ele disse parece até que é tua, e eu disse pois devia ser, e ele disse pois vai ser tua rapaz, vou te fazer um preço bacana porque com truta não sou sacana, eu disse é isso aí cê tá é certo e ele riu e me ofereceu um copo dágua, depois eu paguei e fui embora sem perguntar o nome do comparsa, aqui tudo é gente da boa, todo mundo cuida em se ocupar com qualquer bobagem porque se o fim do mundo chegar a gente quer estar livre e ter honras pra comemorar. Por enquanto tamos aí vamo que vamo, no mais é um ou outro dia sem jantar mas e daí, o fim do mundo não tem fim, de vez em quando leio poemas de um tal de Piva e ando pelos lugares que ela cita, quer melhor lugar pra se estar do que dentro do verso livre de um xamanista?

domingo, 6 de junho de 2010

enterre e crave/o concreto por cima./ um homem decadente/ não rima com rima./ tudo o que te ameaça/ dá cadência à vida.

domingo, 1 de março de 2009

Contra a Tolerância nos Cinemas

Que saudade que eu tenho da aurora do meu cinema, quando as maiores perturbações consistiam em uma bala sendo apertada pelos dedos em busca do doce, em algum sujeito atrasado pelo trânsito ou em um grão de pipoca que caía no carpete. Pois pasmem, senhores: a situação piora a cada geração nessa cidade podre cujos habitantes são chamados de comedores de camarão. São eles uns adaptados ao consumo devorador de seres que carregam merda na cabeça, sem dúvida. E saibam, senhores, que ir ao cinema agora requer estóica atuação diante dos absurdos comportamentos (pasmem nº2) humanos ali decorridos. Poderia eu enumerar as gasturas sucedidas ao longo do enredo, mas a verdade é que o maior problema consiste na intensidade desses fatores, e não na sua multiplicidade.

Mencionaremos aqui apenas um fator, a dizer, “gargalhadas em momentos de extrema inadequação.” Invisto meu interesse em tal aspecto porque pretendo depositar atenção na mais concernente de todas as perturbações atuais nas salas de audiovisual. Sim, senhores, as (pasmem nº3) pessoas sentadas nas suas poltronas agora encontraram a válvula do riso grotesco em cenas de peso dramático para o desenrolar dos acontecimentos. Risos quando a personagem faz um aborto e morre. Risos quando o marido, histérico e perdido, levanta o punho carregado de ira para socar a própria esposa. Risos quando o louco da estória – declarador de verdades por excelência – despeja suas sentenças opacas sobre a consciência dos demais homens comuns.

Admito que minha primeira justificativa para tal fato foi a má-educação dada a esses (pasmem nº4) indivíduos comedores de camarão. Pensei na falta de esclarecimento sobre o real direito de livre pensamento humano, lição ausente em todas as escolas dessa cidade, entupidas de educadores caquéticos. Levei em consideração a educação familiar quadrilátera que o nordeste insiste em não admitir.Levantei a tese de acordo com a qual todos ali estão por demais habituados às músicas dramáticas de fundo das novelas dando-lhes o norte para tais e tais emoções serem exercidas. Lembrei-me da falta de opções que tais consciências têm na hora de exercitarem seu poder de elasticidade. Mas fui rebatido por um argumento de maior força porque profundamente pessimista: as pessoas pagam para ir ao cinema, não conseguem absorver qualquer interesse sobre o enredo e decidem tirar algum proveito do fato de terem pagado por aquilo, resolvendo então estimular suas glândulas sebosas em risos deslocados. Para eles, vale a atualmente recorrente afirmativa “tá no inferno, abraça o capeta.”

Diante de tal perspectiva, “vazia e sem esperança”, como protestou o louco no filme, declaro aqui aberta a caça aos subhumanos.

- Senhores e madames, lustrem suas espingardas, lubrifiquem os canos dos seus rifles, carreguem-se de munições diversas e dirijam-se ao cinema mais próximo. E não se esqueçam de, após a chacina, declararem à mídia que fizeram aquilo em nome da campanha de fim às submentes e desistência da tolerância.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Às vezes eu pego o ônibus do percurso mais longo para trabalhar. Gosto de inventar rotas, corroborar a linha reta dos dias úteis. As vozes dos passageiros estão cheias de bocejos. Curto a vista em placas de aluga-se nas varandas de pequenos apartamentos. Vesti uma camisa xadrez mas preferia a azul que secava no varal. Meu cachorro acordou mais cedo do que eu, não sei que compromisso ele tem todas as manhãs. Quando várias pessoas descem do ônibus eu acho que elas correm para o mesmo destino. Sou o único que desce no ponto final. Sou aquele que permanece no percurso até o fim. Mas acho que vamos sim a um só lugar. Nós e os cães. Já que, no fim dos dias, todos nos encontramos numa noite coletiva e solitária. Como o bocejo de uma segunda-feira.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

- Filho, não vai comer um pão antes de sair? Não dá tempo?
- Estou sem fome, mãe. Sabe, enfrentar manhãs não me deixa exatamente animado.
- An.
- Glub Glub................ tchau, mãe.
- Tchau, meu filho. Não se esqueça de voltar mais cedo, porque os ônibus estão em greve. Você está lembrado de pagar as contas do celular e da internet? Precisa também buscar sua segunda via da Habilitação. E registrar queixa de roubo dos seus cadarços. Ah, e por favor, passa lá na Tia Chica e pede pra ela te entregar as cartilhas e apostilas com o material do concurso para Escriturário da União, você vai precisar delas pra passar na prova.
- gggggggghhhrrrrrrrrrnnnnnnnnnn

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Tudo bem, semana, vamos ver por quanto tempo conseguimos te escalar até que enfim decidamos largar a pedra nas nossas cabeças ladeira abaixo. Eu sou Sísifo e estou Tísico das tarefas. Isso é Trágico e seria Magno se não fosse comigo.

Como diz Camus, o único problema real é aquele: por que Sísifo se esquiva de deixar a pedra esmagá-lo?

Prosseguir, um verdadeiro absurdo.

sábado, 4 de outubro de 2008

lentes com filtro

No meio do caminho uma festa de inauguração de uma loja de alguma espécie de produto fetichista (uma ótica, diga-se), bandejas flutuam, pululam vapores destilados, a cor nos copos é a mesma do sol quando se despede. Eu quis beber o sol. E você sabe o que dizem sobre negar o copo cheio de dia. Que é como negar o dia cheio de corpo - que é como acordar e rogar pragas naquilo que projetou o formato do tempo, as obrigações sociais e seus esquemas Datashow. Que venha portanto o dia em dosagem. O dia cowboy.

E o sol, e as bandejas, e as ululâncias - tudo era mesmo dentro de um Shopping. Então o negócio era fingir que estava interessado nos óculos em algum instante enquanto as atenções estavam no uísque à vontade. Irresistível o que é de graça. Dê graças aos álcoois gratuitos nas inaugurações de algumas coisas sem importância. Porque depois o olho acha mesmo tudo muito bonito. O que importa é o de dentro do copo. O que interessa é o que muda o mundo segundo a perspectiva de quem o vê. Como uma dose de sol num dia que já se foi. Ou como lentes de óculos escuros.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

da arte de se render às necessidades pavonísticas mesmo em serviço - em outros termos, de como eu me tornei um estudante de Direito

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

atire-se, eu recomendo

Todo mundo (meu mundo: pessoas) sabe que meu esporte favorito é salto de alturas. Geralmente dou saltos de grande rigor quando pulo do 3º ou 4º andar dos apartamentos de Bárbara e Amanda - onde comecei minhas investidas na categoria olímpica. O último esporte que levei a sério a ponto de disputar torneios foi o xadrez - e deu em trauma irredutível. Agora estou com tudo pro salto de alturas. Tenho treinado mais intensamente com o objetivo de participar do próximo Campeonato Norte-Nordeste, tendo alcançado alto nível especialmente na categoria salto de passarelas. A do Natal Shopping foi palco pra uma das minhas melhores marcas. Os pés fincaram com leveza no asfalto da BR. A queda foi quase perfeita e eu escapei por pouco de um caminhão me esmagar - até o caderno esportivo da Tribuna noticiou. Ocorre que há pouco inauguraram uma nova passagem de pedestres perto da minha casa. Estava empolgado em testá-la (analisar a distância do solo, o impacto no corpo, a estabilidade do vento, a maciez da pista) e, como todo mundo sabe, eu sempre gasto minhas noites de domingo jogando-me das passarelas. Eu recomendo: o melhor meio de acabar com os tédios niilistas das noites de domingo é saltar de passarelas construídas por cima de vias de alta velocidade. A foto aqui mostrada foi batida por mim mesmo antes do meu salto. (Que revigorante. Minhas segundas têm o ar de feriados sempre que eu me jogo de uma passarela nas noites de domingo).

terça-feira, 16 de setembro de 2008

dois modos de mendigar

1.Procura-se um mecenas.
Recompensa-se com linhas e laudas do mais puro serviço literário.

Interessados, favor entrar em contato via e-mail. Em nome do que ainda pode prestar naquilo que não mata nem engorda, só endivida e desdiviniza.


2. Senhores passageiros, vão me dando licença e desculpas. Tô pedindo não tô roubando. Sou uma pessoa necessitada de gastar todo o meu tempo escrevendo aquilo que não muda políticas públicas nem elege prefeito honesto. Não faço campanha. Só peço que aqueles que possuam algum trocado por favor me ajudem, porque hoje de manhã eu poderia ter ido trabalhar, ganhar o dinheiro do leite dos meus filhos, mas não: eu achei por bem ficar em casa escrevendo no meu notebook. Agradeço-lhes pela atenção. Obrigado, senhor. Obrigado, senhora. Obrigado, moça. Obrigado, mosquito.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Merdodologia do Trabalho Científico

Tô em outra. Enquanto decorre a aula de Merdodologia, eu penso no fogão que eu deixei aceso lá em casa, o gás do forno ligado com o meu gato lá dentro. Cachorro miava demais hoje à tarde, tirou-me a paciência. O nome dele é Cachorro. O meu gato, que a essa altura da aula deve estar assado.

Elegi ‘O Idiota’ pra ler durante todo o curso de Merdodologia. Posiciono o livro por trás do Fulano que se senta na minha frente e pronto, mais uma hora e meia de leitura por terça-feira. Dostoievski me entende e apóia o bom proveito desse tempo gasto na minha vida. Ele bem sabe o que é relevante de se pensar. Estou inclusive cogitando indicar ‘Notas do Subsolo’ à professora de Merdodologia. Vou descobrir o dia do aniversário dela e dar-lhe a obra. Farei a seguinte dedicatória em letra de fôrma: “Para a querida professora de Merdodologia, uma excelente fonte de leitura para as noites tediosas e solitárias das sextas-feiras.” Ela há de me agradecer. Ou se jogar do apartamento. E a causa da morte será: homicídio doloso antecedido de pressão psicológica da vítima contra as suas verdades mais íntimas. Ela e meu gato Cachorro, ambos mortos graças à minha habilidade em esfregar verdades na cara do mundo. Pelo fim de Cachorro eu não pagarei, basta enterrá-lo no jardim – servirá de adubo. Quanto à senhora professora de Merdodologia, escaparei com o argumento de honestidade perene. E hei de ser louvado um dia.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Primeiro que meu celular parou de funcionar. Não bastasse estar sem créditos há mais de mês, agora nem receber ligações espasmódicas de gente me chamando pra dividir conversas eu mais recebo. O carregador simplesmente pensou, Ah, pra quê, né?, existir? E parou de funcionar, perdeu totalmente seu sentido de ser, sua missão nesta vida, oh meus deuses. Quem não tem dinheiro pra o ônibus da faculdade terá de se deslocar (a pé?) até a loja da operadora e rezar pra não ter que gastar o dinheiro que não se tem pra resolver o problema existencial do carregador.

Ficar sem celular em Natal é correr o risco de decepcionar o próprio assaltante.

- Passa o celular, caralho.
- Rapaz, pega aí, mas o bicho está sem crédito há séculos, o carregador não funciona; sem contar que é o modelo mais barato que eu encontrei na loja veada que cobra 100 reais pra gente gastar dinheiro tendo que pôr créditos todo mês, mesmo sem usá-los por inteiro.
- É o quê? Passa o celular, porra.
- É o carregador, meu senhor, ele precisa fazer terapia. Será que uma bioenergética funcionaria, ou seria melhor uma behaviorista?

Eu avisei.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

oi?


- Alora?
- Alô?
- Pois não?
- Aqui é Thiago, da Terra.
- Opa, beleza?
- Mais ou menos, rapá. Dá pra arrumar uma carona na tua nave da próxima vez que vocês vierem por aqui? Tô precisando dar umas voltas, entende.
- Claro, meu chapa, pode deixar que a gente manda sinal telepático quando estiver pela área.
- Falou.
- Valeu. Se cuida, hein. Não vai beber demais.
- Podeixar.