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quinta-feira, 19 de maio de 2011



Ele olhou assim pra mim e me disse coisas que eu fui e quis, quer dizer, foi muito claro quando falou comigo, então eu disse sim, Marías, sim, Javier. E depois ficou calado do meu lado e me abriu as vias respiratórias e me deu o nome de alguma coisa difícil de memorizar (o próprio nome), estou tentando me lembrar, era uma palavra nova, não era? Era um nome que significava “abra-se” e “exponha-se”, mas que também queria dizer “zona erógena” e “zona de conflito”. Preciso me lembrar do apelido que Javier me deu quando veio aqui.

domingo, 15 de maio de 2011

domingo, 28 de novembro de 2010

bandini bataille bolaño borges bomdia melville malcolm mutarelli meudeus fellini fiodor francis franz friedrich falkner fudeu peguem agora na minha mão e me digam, você está certo, mesmo que seja só por comiseração.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

terraterraterra

Aí que estou escrevendo esse livro sobre uma viagem ao fundo do poço (entenda aqui) e me deparo com algumas elaborações de Rodrigo Braga e

tem muito a ver:

(rodrigo braga, 05)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

resposta a Albert, quando este diz que o suicida é, no instante do ato, ébrio ou demente, tomado por paixões

"Ai de vós, pessoas razoáveis", exclamei, sorrindo. "Paixão! Embriaguez! Demência! Como se mantêm calmos, impassíveis, os homens da moral. Censuram o bêbado, desprezam o louco, e seguem adiante, agradecendo a Deus, como o fariseu, por não terem sido feitos como um deles. Eu já me embriaguei mais de uma vez, as minhas paixões nunca estiveram muito longe da loucura, e disso não me arrependo; pois pude compreender, no que estava ao meu alcance, que todos os homens extraordinários, que criaram algo grandioso, algo que parecia impossível, sempre foram considerados ébrios ou dementes."
(o velho Goethe, bom na tinta)

terça-feira, 28 de abril de 2009

quinta-feira, 26 de março de 2009

"Não há nenhum destino à nossa espera,
Nenhum dado, só nossos corpos;"
Obrigado, Mr. Auden.

domingo, 4 de janeiro de 2009


Sophie Calle sabe o que é ter idéias.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Caminho para o Inferninho nºS

A entrada fica naquela esquina entre o torto e o direito, onde desce uma cachoeira de plumas úmidas às 2 da manhã, espumas de real vinho branco onde os ratos se renovam, espumas da saliva de mamíferos roedores de desejos por renovação. Naquela esquina você entra, mantém o foco a um palmo dos lábios, vai descobrir porta pra saída; o refúgio de todos os dissidentes da madrugada, que correm pra essa rua no cruzamento em frente ao grande porto carregador de caminhões enormes com açúcar sal farinha e tudo o que chega pelo mar. Mas as pessoas vêm pelo asfalto, seguem os sentidos infravermelhos, reconhecem ondas eletromagnéticas dos seus semelhantes, e vão e vêm, tontos em busca da esquina saída para o nunca mais acordar. Porque a noite amanhece. Insistentemente. E os roedores se recolhem, de acordo com suas incontestáveis regras desoxirribonicleicas.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

sobre penas e plumas

"Aparência é, pra mim, aquilo mesmo que atua e vive, que na zombaria de si mesmo chega ao ponto de me fazer sentir que tudo aqui é aparência, fogo-fátuo, dança de espíritos e nada mais - que, entre todos esses sonhadores, também eu, o 'homem do conhecimento', danço a minha dança, que o homem do conhecimento é um recurso para prolongar a dança terrestre e, assim, está entre os mestres-de-cerimônia da existência."
pedaço do aforismo 54, Senhor Fred Nix

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

E de fato às vezes os dedos têm um peso que as palavras não são capazes de carregar.


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Antes, enquanto em Amsterdã, as fotos eram aqui:
http://www.flickr.com/photos/thbarbalho/

Agora, com fotos feitas em casa e nos arredores, eu ilustro aqui:
http://www.flickr.com/photos/thbr/

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um dos labirintos urbanos.
Entre, enfrente minotauros e dê adeus ao horizonte.


domingo, 19 de outubro de 2008

Aos que querem uma segunda-feira de otimismo e boas maneiras, favor pular esta postagem.

"A perplexidade de pertencer à raça humana. O que quer dizer ser humano? Os canalhas são humanos? Os assassinos são humanos? A cada ano novo, nas retrospectivas, o que se vê é tão sórdido, tão absurdo, ou tão terrificante, que você se pergunta com renovada intensidade: o que é ser humano? Quem era mesmo a santa que lavava os pés dos leprosos e depois bebia a água das bacias? Criança, no colégio interno eu tinha convulsivos ataques de náusea quando a freira me lia a tal história. Era sempre um sair correndo com o lenço na boca e vomitar lá fora. Aquela santa era humana? Uma noiva de Deus, me diziam. Eu, no meu mais lá no fundo, meditava: que Ele nunca me perceba, que aos olhos dele eu seja apenas sombra. Deu certo. E até hoje nunca vou entender por que Deus ficava noivo de alguém que bebia aquela água nojenta. Com o mesmo horror e perplexidade, hoje me pergunto: por que alguém mata alguém com doze punhaladas? Daniela Perez, doze punhaladas. Margot Proença, minha amiga de infância, doze facadas. Aparício Basílio, meu amigo de mocidade, oitenta ou noventa tesouradas. E centenas, milhares de anônimos assassinados, torturados, linchados.

O que é ser humano? Entre a verdade e os infernos, seriam dez passos de claridade, dez passos de escuridão?"

(segunda, 11 de janeiro de 1993)

HILST, Hilda. Senhor de Porcos e de Homens, in Cascos & Carícias & Outras Crônicas. São Paulo: Globo, 2007.

sábado, 4 de outubro de 2008

lentes com filtro

No meio do caminho uma festa de inauguração de uma loja de alguma espécie de produto fetichista (uma ótica, diga-se), bandejas flutuam, pululam vapores destilados, a cor nos copos é a mesma do sol quando se despede. Eu quis beber o sol. E você sabe o que dizem sobre negar o copo cheio de dia. Que é como negar o dia cheio de corpo - que é como acordar e rogar pragas naquilo que projetou o formato do tempo, as obrigações sociais e seus esquemas Datashow. Que venha portanto o dia em dosagem. O dia cowboy.

E o sol, e as bandejas, e as ululâncias - tudo era mesmo dentro de um Shopping. Então o negócio era fingir que estava interessado nos óculos em algum instante enquanto as atenções estavam no uísque à vontade. Irresistível o que é de graça. Dê graças aos álcoois gratuitos nas inaugurações de algumas coisas sem importância. Porque depois o olho acha mesmo tudo muito bonito. O que importa é o de dentro do copo. O que interessa é o que muda o mundo segundo a perspectiva de quem o vê. Como uma dose de sol num dia que já se foi. Ou como lentes de óculos escuros.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

atire-se, eu recomendo

Todo mundo (meu mundo: pessoas) sabe que meu esporte favorito é salto de alturas. Geralmente dou saltos de grande rigor quando pulo do 3º ou 4º andar dos apartamentos de Bárbara e Amanda - onde comecei minhas investidas na categoria olímpica. O último esporte que levei a sério a ponto de disputar torneios foi o xadrez - e deu em trauma irredutível. Agora estou com tudo pro salto de alturas. Tenho treinado mais intensamente com o objetivo de participar do próximo Campeonato Norte-Nordeste, tendo alcançado alto nível especialmente na categoria salto de passarelas. A do Natal Shopping foi palco pra uma das minhas melhores marcas. Os pés fincaram com leveza no asfalto da BR. A queda foi quase perfeita e eu escapei por pouco de um caminhão me esmagar - até o caderno esportivo da Tribuna noticiou. Ocorre que há pouco inauguraram uma nova passagem de pedestres perto da minha casa. Estava empolgado em testá-la (analisar a distância do solo, o impacto no corpo, a estabilidade do vento, a maciez da pista) e, como todo mundo sabe, eu sempre gasto minhas noites de domingo jogando-me das passarelas. Eu recomendo: o melhor meio de acabar com os tédios niilistas das noites de domingo é saltar de passarelas construídas por cima de vias de alta velocidade. A foto aqui mostrada foi batida por mim mesmo antes do meu salto. (Que revigorante. Minhas segundas têm o ar de feriados sempre que eu me jogo de uma passarela nas noites de domingo).

terça-feira, 16 de setembro de 2008

dois modos de mendigar

1.Procura-se um mecenas.
Recompensa-se com linhas e laudas do mais puro serviço literário.

Interessados, favor entrar em contato via e-mail. Em nome do que ainda pode prestar naquilo que não mata nem engorda, só endivida e desdiviniza.


2. Senhores passageiros, vão me dando licença e desculpas. Tô pedindo não tô roubando. Sou uma pessoa necessitada de gastar todo o meu tempo escrevendo aquilo que não muda políticas públicas nem elege prefeito honesto. Não faço campanha. Só peço que aqueles que possuam algum trocado por favor me ajudem, porque hoje de manhã eu poderia ter ido trabalhar, ganhar o dinheiro do leite dos meus filhos, mas não: eu achei por bem ficar em casa escrevendo no meu notebook. Agradeço-lhes pela atenção. Obrigado, senhor. Obrigado, senhora. Obrigado, moça. Obrigado, mosquito.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

micro-biografia fictícia em homenagem à própria e verossímil Evie

Eveline


Desde cedo, Eveline se preparou para o mundo. Criança ainda, a mochila era denúncia do desejo de ir, Para onde, filha?, perguntavam-lhe, Não sei, mas adoro mapas, respondia.

De fato, a única coisa que lhe agradava nas aulas de geografia eram os mapas. Sempre que o professor expunha o mundo à frente de todos os alunos, Eveline tinha em si confirmada a verdade mais concreta de sua infância: O mundo é para mim.

Aos poucos, passou a ouvir canções inglesas para imaginar outra nação, outro povo. Os discos em rotação, a mente de Eveline em imagem do não visto. E descobriu que outros povos são ainda feitos de gente como ela, que compositores e personagens são tão humanos quanto ela. Por isso, dos outros ela queria participar. O sotaque ela forjava. A brancura ela vestia. O humor ela exercitava. O frio até. Mas a adolescência existe como uma turbulência, e Eveline se cansou de imaginar. Era hora de ação.

Quando, saindo de seu quarto, olhou à volta, viu que não havia como. Ir ao mundo era complicado. Dinheiro e paciência são os bens de um viajante, concluiu depois de muita tristeza. Novos discos usados acariciavam aquela adolescente, para quem ser rude era um jeito honesto de viver inconformada.

Era o outro, o que não sabia que queria – queria ela. O desabitado por seu corpo. A gente que sua carne ainda não conhecia. Descobriu então o teatro, e foi um acalento. Catarse para um espírito impaciente, o teatro lhe era casa.

E também as letras reajustadas em novas línguas, as coisas contadas em conversas escritas por estranhos idiomas: entregar-se ao estranho era mesmo o seu desejo. Afundou-se nos rios contados por Virgínia Woolf. Enquanto vigiava a aparição casual de um escape, Eveline viajava com Virgínia para o lado de dentro. Mergulhavam amigas num rio de horas e rosas, de festas e suicídios. Viu florestas negras, bebeu vinhos brancos. Morreu. Viveu. Comprou casa, fez festa com os amigos. Estabeleceu assim sua fortaleza, porto para as várias voltas.

Eveline: onde está agora, adulta. Casou-se? Acredita-se que não. Mulher viajante não tem raiz, voa. Eveline era um balão arrastado em fogo. Pode ser que esteja num trem, agora adormecida, cansada do que decidiu ser. Aguarda por ela um novo ar, uma nova cidade. Eveline quer o novo se repetindo, o desbravado rumo até o fim.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

contra os depósitos de gordura

Pra que ficar com o que não presta, certo? E pra que abdicar do prazer, não é mesmo?

Por isso, come-se o dobro do que o estômago suporta e, após o prazer do paladar e do desejo de saciedade, posiciona-se o dedo na parte posterior da língua, fazendo movimentos de vai e vem em volta de um ponto imaginário antes das glândulas paratireóides. O timo, por sua vez, receberá estímulos musculares, gerando espasmos no sentido anti-natural por todo o esôfago. Desse modo, o que viraria depósito de gordura, transforma-se em lixo e vai, do vaso sanitário, direto para o esgoto. É o que o senso comum costuma chamar de vômito.

Se o darwinismo nos acusa de estarmos sofrendo um processo de exclusão evolutiva pelo fato de ainda acumularmos energia quando não mais precisamos dessa reserva, faremos o possível para permanecermos na cadeia animal. Somos capazes de burlar qualquer mecanismo instintivo de auto-extinção, afinal manteremos nosso hormônio de impulso à eternidade perene. Fim.